Filme: Irreversível - Uma reflexão

 



Título Original: Irréversible 

Diretor: Gaspar Noé

Gênero: Drama | Crime | Mistério | Triller 

País: França

Elenco: Monica Belluci (Alex), Vicente Cassel (Marcus), Albert Dupontel (Pierre), Jo Prestia (Tenia)

Data de Lançamento: 26 de Setembro de 2003 (Brasil)

IMDB: 7,4/10

Irreversível é um filme difícil de esquecer e de certa forma indigesto. Considerado um dos filmes mais controversos do cinema, as primeiras cenas trazem uma sensação de vertigem com um jogo de câmera em espiral e enquadramentos confusos. Os cortes são feitos enquanto a câmera gira levando ao plano sequinte. Outro fator marcante é a predominância da cor vermelha como o principal filtro da primeira metade da história. 

O filme entrega os acontecimentos sem seguir a ordem cronológica habitual, em uma edição de montagem que nunca tínhamos visto antes, e esse elemento técnico chamou nossa atenção. É impossível prever os acontecimentos e somos levados a mesma sensação alucinada que os personagens.  O filme é contado de trás para frente, em blocos. 

Nessa obra, o diretor Gaspar Noé evidencia sua marca registrada: cenas viserais e cruas desde a nudez até a violência explícita, fatores que causam desconforto durante o filme. Conhecido pela clássica cena de violência com a atriz Monica Belluci, a história do filme vai um pouco além, na nossa percepção, trazendo os mais diversos esteriótipos do universo masculino. 

O primeiro diálogo entre dois homens que cometeram crimes sexuais, nos dá uma prévia do que o filme vai apresentar: o vazio, o sexo prosmíscuo, a violência, a brutalidade dos personagens e dos ambientes masculinos. Aparentemente essa primeira cena não faz sentido para o restante do filme, e só quando o filme termina é que entendemos o contexto da cena dentro do roteiro. 

Em seguida somos apresentados aos dois personagens masculinos principais Marcus (Vicente Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) dentro de uma boate gay procurando por alguém conhecido como Tenia (Jo Prestia). A sequência de cenas é de deixar qualquer um tonto, a câmera apresenta os ambientes girando alucinadamente e aos poucos identificamos todo tipo de perversão sexual. O desfecho da busca dos personagens dentro da boate é uma cena de violência explícita, brutal; é chocante e é difícil de ver pelo realismo impressionante. Aliais, esse filme é muito realista, seja nos esteriótipos apresentados, seja nos comportamentos incômodos que aborda.

A representação da promiscuidade chama a atenção, o take dentro da boate é longo. A boate tem andares subterrâneos, os personagens descem aos níveis mais ocultos e profundos da boate, e na nossa leitura essa descida representa as profundezas do sexo, as profundezas da busca pelo prazer e satisfação masculina. Sim, Irreversível é um filme masculino. Sua atmosfera densamente violenta é uma alegoria do esteriótipo do masculino. Não sabemos se essa foi a real intenção do diretor mas foi nossa leitura. A primeira metade do filme não mostra nenhuma mulher, os  ambientes são construídos com homens e a sua relação obscura com a violência, o sexo, o prazer e a satisfação. 

Logo após a cena em que a personagem principal (única mulher) - Alex - é apresentada ferida e em coma, o bloco sequinte mostra Marcus em uma festa, totalmente eufórico. A imaturidade do personagem fica evidente pela fala de Pierre que o repreende dizendo que Marcus parece um garoto de 15 anos de idade. O mesmo faz Alex minutos antes de deixar a festa visivelmente aborrecida com o comportamento imaturo de Marcus. Novamente, outro esteriótipo do universo masculino é apresentado, jogando na cara do telespectador um comportamento bizarro, infantil e tão comum em muitas pessoas. Quando nos esquecemos da responsabilidade afetiva que temos dentro de um relacionamento, e saímos em busca de prazer e satisfação. Nossa impressão é que o filme questiona sutilmente essa busca constante pelo prazer. A grande pergunta após ver esse filme é: até que ponto os limites são ultrapassados e justificados quando procuramos pelo prazer e satisfação sexual. 

A cena clássica como descrita diversas vezes por críticos e pelos fãs do cinema é agressiva. Desnecessária? Acho que não. Durante a cena, um elemento perturbador é apresentado de forma sutil, quase imperceptível. A sombra de um homem no final do corredor, alguém que vê o que está acontecendo e não faz nada. Essa representação da omissão é dolorosa demais. A cena segue densa, angustiante, repulsiva. Acontecimentos que poderiam ser reversíveis se o ser humano não fosse tão omisso, imaturo, egoísta. A omissão representada pela sombra de alguém que vê a brutalidade acontecendo e não faz nada é a definição do esteriótipo cruel e covarde do ser humano. 

A segunda metade do filme finalmente apresenta por completo a única personagem mulher. O filtro do filme saí do vermelho vivo e ambientes escuros para cenas em tom alaranjado. O roteiro fica dramático e nos entrega a gravidez de Alex nos minutos finais. Irreversível é um filme sem final feliz, e um filme para ver uma única vez. No entanto, sua história faz refletir sobre masculinidade tóxica e a relação dos homens com o sexo, o prazer e o vazio. Não é um roteiro que explica as ações dos personagens, tudo é muito seco e cru. Nada é dito de forma explícita com diálogos, no entanto, todas as camadas estão ali na forma de comportamentos violentos, infantis, promiscuos e machistas. Demoramos muito para assistir esse filme justamente pelo seu teor e dificilmente vamos assistir novamente. 

Nota do Cena de Cinema: 8.0/10


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